
Cinema saudável e nutritivo
Desde “Toy Story” (1995), a primeira animação de computador em longa-metragem, que o estúdio Pixar não erra a mão no tempero. A cada trabalho realizado, o estúdio enriquece o seu rico cardápio (sempre apresentando um mundo novo) e o espectador se delicia com boas doses de criatividade, tecnologia e, claro, de um roteiro bem temperado e bem nutrido. Isso faz com que o ingrediente principal, a alegria, seja saboreado por crianças de todas as idades com histórias cada vez mais gostosas. A oitava “refeição” feita pela Pixar é de dar água na boca, é apetitosa e dá vontade de repetir. Estou falando de “Ratatouille”, a mais nova opção no menu da criançada que oferece um filme saudável, nutritivo, bem preparado e que deverá agradar todos os paladares.
Remy (voz de Patton Oswalt) é um rato que vive numa cidadezinha do interior da França, próximo a Paris. O seu sonho é se tornar um chef de cozinha, mas o fato de ser um ratinho pode atrapalhar seus planos. Por isso, forma uma improvável parceria com Linguini (voz de Lou Romano), o novo ajudante de cozinha do restaurante Gusteau’s, para tentar colocar em prática suas habilidades e realizar o tão impossível sonho.
“Ratatouille”, dirigido por Brad Bird (“Os Incríveis”) e Bob Peterson, é encantador. A tecnologia da computação gráfica é deslumbrante ao apresentar um realismo que impressiona por suas cores suaves e texturas. Tecnicamente falando é um primor, desde os trejeitos dos personagens, as estruturas digitais do protagonista-roedor (os pêlos de Remy parecem reais), os objetos, os alimentos, a água e o fogo, até a fotografia no ângulo dos ratos, que homenageia Paris reproduzindo à perfeição as luzes da capital francesa em locações vistosas. Não é atoa que a produção tirou mais de 4.500 fotografias de referência de Paris para trabalhar no ambiente e na iluminação do longa.
Há também ágeis movimentos de “câmeras”, principalmente nas boas cenas de ação (resumidas a perigos e armadilhas repletos de perseguições), e seqüências subjetivas interessantes que acompanham Remy em seu deslocamento entre esgotos e fendas de casas. Existe uma seqüência em traveling que vemos vários apartamentos em Paris através da perspectiva do protagonista, cena semelhante a uma exibida em “Minority Report”, que, segundo Bird, foi ligeiramente influenciada por “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock.
A impecável trilha sonora do compositor Michael Giacchino (“Os Incríveis”) é contagiante e mantém a harmonia e o interesse do espectador à película misturando acordes franceses com influências jazzísticas ao som de instrumentos pouco convencionais, como gaitas e acordeões.
O roteiro, escrito por Brad Bird, é uma refeição a parte, recheado dos tradicionais temas universais que nunca deixam de serem nutritivos, como a amizade, a lealdade, a união, a questão familiar, a busca da própria independência, o ato de não roubar, a importância de sermos verdadeiros, a necessidade de auto-aceitação, nunca desistir dos nossos sonhos e a capacidade de realizar tarefas que pensamos ser impossíveis (motivação vista no longa na forma do livro “Todos Podem Cozinhar”, escrito pelo personagem Gusteau que é dono do famoso restaurante do filme).
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Os grandes trunfos do roteiro são o seu paladar refinado sobre gastronomia e a autenticidade em criar um universo de um ratinho que sonha em ser chef de cozinha. Com sofisticados e artísticos pratos da culinária francesa, o filme explora a preparação dos alimentos e revela à criançada como é o cotidiano da cozinha de um luxuoso restaurante. De tão realista a animação até imaginamos o aroma das panelas ao fogo e das refeições digitais.
Em meio a tantos temas e deliciosas comidas, ainda sobra espaço para os realizadores criticarem, com razão, a comida fast-food. Isso, no entanto, serve de mote para o vilão chef Skinner (voz de Ian Holm) em deixar de lado a criatividade gastronômica (inclusive ele é contra o livro de Gusteau) para se acomodar com a “comida rápida” de baixa qualidade, que poderá comprometer o status do famoso restaurante. Mais uma vez a mensagem subliminar faz uma crítica ferrenha à qualidade dos alimentos que comemos. Isso, porém, difere Remy de outros ratos que sempre se preocupa em comer um bom alimento ao invés do lixo.
Uma boa sacada no script são os personagens e as situações de fácil identificação com o público. Além do trapalhão e convencional jeitão de Linguini, Remy é a locomotiva da trama. Com o olfato aguçado, a facilidade de combinar ingredientes e a persistência em realizar seu sonho e se tornar famoso, o cozinheiro roedor sabe que será impossível ter fama junto aos humanos, mas sempre se esforça para se auto-realizar e demonstrar às pessoas ao seu redor a sua força de vontade de alcançar seus objetivos. O ratinho ainda tem uma relação interessante com o pai conservador que não consegue entender a maneira de pensar e o caráter diferenciado de seu filho. Outros personagens de destaque são os vilões chef Skinner, cujo nome foi dado em homenagem ao psicólogo behaviorista B.F. Skinner, famoso por suas experiências com ratos, e o crítico gastronômico Anton Ego (dublado na versão original por Peter O'Toole), que é o “lado negro” das expectativas dos protagonistas, pois sua presença representa a ameaça máxima na decadência do restaurante. Sua alma crítica é proferida quando ele diz não querer o melhor prato da casa, apenas deseja ser surpreendido.
"Ratatouille" pode não ter as altas doses de humor que acostumamos ver nos filmes da Pixar, mas tem o ingrediente perfeito para fascinar e divertir qualquer criança ou adulto que prove das delícias que o filme oferece. É um entretenimento de primeira e com uma nutrição invejável difícil de ver nos cinemas. Ah! E como é de tradição, não perca o aperitivo de entrada, o hilariante e genial curta-metragem “Quase Abduzido”.
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(Ratatouille/EUA/2007) * * * * *
Crítica N.º 488
Por Ricardo Morgan
Belo Horizonte – 02/07/07
Confira o trailer de "Ratatouille":
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